A Cabeça de Um louco totalmente Normal

24 de novembro de 2010

Vamos falar, e vamos ouvir!



Dona Comunicação – História não escrita

Otávio, o caixa, por certo nunca ligara para problemas de comunicação. Falava... e dizia. Pronto. O interlocutor que ouvisse... e escutasse. Ignorava, talvez, que a cada universo de ouvintes corresponde um linguajar específico, um repertório.

Palavras como “isótopo” e “fissão” só costumam ser inteligíveis entre os enunciados em Física Nuclear. Expressão como “Malagueta diz que vai apagar o macaco” pode ser corriqueira entre policiais e malandros, mas para outros mortais carece tradução (Malagueta diz que vai matar o policial).

Otávio não atentava para isso e se julgava, decerto, possuidor de comunicação universal, acessível a qualquer repertório. Falava e dizia. Quem ouvisse que escutasse.

Assim, quando Terezinha lhe apresentou o cheque, ele nem imaginou que a cliente talvez não entendesse o idioma bancário:

_ Por favor, moça, seu cheque é nominal a Terezinha Gomide, precisa de endosso.

Terezinha escutou, mas não ouviu. Nominal? Endosso? Endosso Endosso tinha sabor de açúcar. Mas não, era possível, não tinha nada a ver.

_ Desculpe seu Otávio, não entendi.

De novo, o caixa disse:

_ Simples. Coloque sua firma aqui no verso.

Ainda sem ouvir, a cliente espichou-lhe o olhar interrogante. Verso? Firma? Que diabos. Antes “nominal”. Agora “verso”. “Endosso” e também “firma”. Ora, eu não sou sócia de nada! Nem poeta! Terezinha, atônita, achou-se de perguntar:

_ Perdão, seu Otávio continuo não compreendendo.

Deu-se, por fim, um estalo. O caixa sentiu os cifrões da própria língua, pensou no repertório de Terezinha e tratou de adivinhá-lo. Fácil, pensou. Com sorriso de psicologice, foi virando o cheque e apontou com jeito cúmplice:

_ Coloque aqui seu nome. Assim... como você faz no final de carta pro seu namorado.

Terezinha iluminou-se. Decidida, pegou firme na caneta e lascou no verso do cheque: Com todo amor, um grande beijo. Terezinha. Diante daquela Terezinha sorridente, Otávio, o caixa, foi apresentado à dona Comunicação. Sentiu, naqueles olhos brilhantes, que há repertórios e repertórios. E que falar nem sempre é dizer.

(Autor desconhecido)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Estou livres para qualquer tipo de critica fique a vontade, eu agradeço .....